
Há 30 anos atrás, namorar era muito romântico. Casais trocavam cartas perfumadas e esperavam ansiosos no portão pela visita de sua grande paixão. Tudo isso com o consentimento dos pais, obviamente, senão nenhum namoro durava até o casamento.
Já há 10 anos, as coisas não eram bem assim. Existia uma maior liberdade de expressão e a mídia ganhava cada vez mais espaço, onde a televisão era o principal formador de opinião da grande maioria da população. Namorava-se e transava-se em qualquer lugar – como fazemos até hoje.
De alguns tempos pra cá, novas tecnologias além da televisão surgiram e os relacionamentos evoluíram, ficando cada vez mais constantes e mais intensos. Tornou-se relativamente fácil namorar a distância: voar de avião é acessível, falar ao telefone a qualquer momento é real com um celular, e a Internet encurtou quilômetros de distâncias em apenas um clique do mouse.
Tudo ficou mais rápido. Se você está com saudades da sua namorada ao meio-dia, use seu celular. Se o seu marido não avisou que vai chegar mais tarde, envie uma mensagem de texto para ele. Precisa dizer que ama neste exato momento? Escreva um e-mail.
O problema é que a tecnologia não funciona como nós queríamos e às vezes falha. É aí que mora o problema nos nossos relacionamentos.
Perguntas típicas como “Por que ele não me atende?” ou “Ela já respondeu o seu e-mail?” são muito freqüentes no nosso dia-a-dia, e oferecem um imediatismo recorrente de que tudo pode ser resolvido em questão de minutos. “Pessoas apaixonadas são pessoas ansiosas”, explica Regina Vaz, especialista em Relacionamentos Humanos e diretora executiva da Consulte Brasil. Os casais fizeram das novas tecnologias como a Internet e o celular mais uma maneira de namorar e isso transformou alguns relacionamentos reais em namoros virtuais.
Muitas pessoas tornaram-se tão dependentes da tecnologia que algumas tomam atitudes no mínimo interessantes. Regina Vaz – que também orienta casais em um programa da RedeTV – conta que a esposa de um de seus clientes era tão dependente do marido, que usava a tecnologia para suprir suas necessidades. “Ela enviava dezenas de mensagens por dia, e como ele não tinha tempo para respondê-las, encarregou sua secretária para cuidar da tarefa. Ela recebia as mensagens da esposa do chefe e ela mesma as respondia. No final do dia, fazia um relatório para o chefe, que chegava em casa com todo o assunto do dia na ponta da língua”.
Nem todo mundo é assim, mas muitos já passaram por situações onde a tecnologia interferiu e muito em algum momento do relacionamento, e nós nem sequer percebemos. Uma ligação não atendida simplesmente porque o celular estava descarregado pode causar muito transtorno para um casal. Um scrap deixado no Orkut por aquela amiga do trabalho pode azedar o jantar romântico de muitos namorados também.
“A tecnologia nos tornou imediatistas”, comenta Regina. “Resolver algum problema do namoro por e-mail é como soltar uma bomba e sair correndo”, compara a especialista. A rapidez da tecnologia também encurtou a duração dos relacionamentos. Os “namoros” de hoje em dia começam, terminam e recomeçam de novo muito mais rápido e com muito mais freqüência de quando não nos relacionávamos tanto com a tecnologia. Não é difícil encontrar situações em que um casal brigou uma dúzia de vezes só por causa de um grito no telefone, uma mensagem mal enviada ou um e-mail do tipo “precisamos conversar” mal interpretado. E lá se vão muitas brigas. E lá se foram muitos casais para a fila dos solteiros novamente.
“A tecnologia trouxe uma sociabilidade dissociativa” explica o analista de comportamento e consumo da What’Zone, Sérgio Lage. “Quanto mais você se relaciona, menos intimidade você cria. A grande facilidade de se relacionar que a tecnologia nos trouxe tornou o ser humano mais difícil de adquirir intimidade com outras pessoas. É mais superficial e menos comprometimento. Você tem um monte de amigos, um monte de relacionamentos, mas não é íntimo de ninguém”.
A Internet e as redes sociais, como o Orkut, facilitaram o relacionamento de pessoas que antes não se relacionavam tanto, ou porque são tímidas, ou por falta de oportunidade. “O tradicional nerd, que ficava atrás do computador se escondendo do mundo, hoje é bem relacionado, é popular, e tem inúmeros amigos em todo canto do planeta. É um ser antenado”, comenta Sérgio, que também vê o lado bom que a tecnologia oferece aos nossos relacionamentos. Para ele, a Internet possibilitou que muitas pessoas pudessem sair de trás de sua timidez e fazer contato no mundo real, recobrar a sociabilidade que todos nós precisamos, e que a tecnologia só pode tirar se nós a permitimos.
Relacionar-se sempre foi algo feito no mínimo com duas pessoas, e a tecnologia criou novos meios – e mais rápidos – para que isso continue acontecendo. É impossível não refletirmos quantas coisas seriam mais difíceis – e até impossíveis – de serem feitas sem as facilidades que a tecnologia nos oferece, mas nunca podemos esquecer que tudo em excesso é prejudicial. O mundo anda a todo vapor, produzindo informações novas a cada segundo. Cabe a nós peneirarmos o quanto isso pode afetar nossa vida, e o quanto a gente pode simplesmente deletar. Assim como colocar um e-mail na lixeira do computador.